A História do Protetor Solar

Em minhas aulas eu sempre evitei falar sobre os primórdios da proteção solar, mas uma recente revisão me ajudou a obter informações mais confiáveis e vou compartilhar com vocês um pouco do que foi abordado por pesquisadores do Reino Unido em recente publicação.

Embora a conscientização do público sobre o uso de protetor solar e seu papel fotoprotetor tenha aumentado, poucos de nós temos conhecimento da história do filtro solar e de como seu papel na fotoproteção foi descoberto.

Escolher o melhor protetor pra pele pode ser complicado por causa da variedade de marcas que existem. O consumidor leigo tem pouco conhecimento sobre o tema e pra ele parece que se o FPS for alto e o sensorial seco, isso basta. Alguns mais antenados já sabem que existem filtros físicos e químicos e os mais conscientes já buscam protetores mais vegetais e veganos. Um mercado bilionário de $ 11,6 bilhões em 2018 e previsão de chegar a $ 24,4 bilhões em todo o mundo até 2029.

O símbolo solar mais antigo conhecido foi encontrado em Ghassul, no vale do Jordão em Israel, há cerca de 6.000 anos, e a humanidade concebeu o sol como um deus por vários séculos, pois ele fornecia vida, calor e brilho. Embora a adoração ao sol continuasse, os humanos começaram a entender que o sol tinha efeitos prejudiciais, especialmente para a pele, o que leva a um pensamento mais racional. A primeira civilização a perceber isso e fornecer métodos fotoprotetores foram os egípcios em 4000 AC. Eles usaram extratos de arroz, jasmim e tremoço (uma planta leguminosa da mesma família da ervilha que é utilizada no tratamento do colesterol e da diabetes). No entanto, o principal fator para o desenvolvimento do filtro solar naquela época, foi a valorização de uma pele mais pálida, pois consideravam a pele mais clara mais atraente do que a pele mais escura. Na Grécia antiga, os atletas cobriam seus corpos com uma mistura de óleo e areia durante o treinamento sob o sol para os jogos olímpicos pra evitar quimaduras.

O óxido de zinco, um composto encontrado em filtros solares físicos hoje, foi descoberto em um antigo texto médico indiano, chamado “The Charaka Samhita". O texto descreveu o uso de pushpanjan (que se presume ser óxido de zinco), como pomada para olhos, feridas abertas e queimaduras. Ele tem sido usado por muitos séculos desde então principalmente para fins cosméticos e temos diversas variedade de óxido de zinco com tamanhos de partícula e revestimentos diferentes.


Os primeiros absorvedores da Radiação UVB


Com a descoberta do papel da luz solar nas queimaduras cutâneas em 1820 por Sir Everard Home, o primeiro presidente do Royal College of Surgeons, várias substâncias foram pesquisadas para avaliar sua capacidade absorvedora da UVB.

O sulfato de quinina foi a primeira substância usada para reduzir a queimadura causada pelo sol. A adição da quinina em loções e pomadas aconteceu em 1891 por Friedrich Hammer na Alemanha e assim, ele criou o primeiro protetor solar químico da história.

A associação de que o câncer de pele poderia ser devido à exposição prolongada e repetida à luz solar ocorreu em 1894. Os pesquisadores daquela época associaram as graves alterações degenerativas nas áreas expostas da pele dos marinheiros ao desenvolvimento de câncer de pele, enquanto Dubreuilh, professor de dermatologia da Universidade de Bordeaux, observou a incidência frequente de ceratoses actínicas e câncer de pele em trabalhadores de vinha e não via essa incidência em moradores próximos que não atuavam em céu aberto por muito tempo.

Foi em 1922 que dois cientistas alemães publicaram os primeiros estudos detalhados do espectro de ação para eritema e pigmentação da pele humana. Eles mostraram que os comprimentos de onda UV mais longos eram mais eficazes na produção de pigmentação do que os comprimentos de onda mais curtos, que por sua vez causavam mais vermelhidão. Eles criaram uma versão de protetor solar composto por salicilato de benzila e cinamato de benzila.

Mas o primeiro protetor solar a ser comercializado foi lançado em 1933 contendo ácido p-amino benzoico (PABA). Ele não durou muito, pois muitos dermatologistas começaram a relatar alergia ao componente e atualmente muitos protetores colocam o “PABA-free” no rótulo.

O surgimento dos testes de eficácia contra UVB


Com a crescente popularidade dos filtros solares contendo PABA, métodos de teste foram necessários para determinar o fator de proteção dos filtros solares. Isso aconteceu em 1956 que posteriormente foi aprimorado em 1974 pelo fundador da Piz Buin, uma marca que existe até hoje nos estados unidos. Aliás, foi ele que apelidou o teste de FPS (fator de proteção solar) que foi adotado em 1978 pelo FDA e transformado no teste oficial para comprovar a proteção dos protetores.


Os primeiros absorvedores da Radiação UVA


Mesmo sem saber exatamente as diferenças e efeitos da UVA e UVB na pele, Albert Kligman, um dermatologista americano descreveu como a exposição ao sol causa danos estruturais à pele que podem ser diferenciados do processo de envelhecimento intrínseco. Foi Kligman quem primeiro usou o termo “fotoenvelhecimento” e enfatizou a importância de filtros solares com melhor proteção, mas somente 10 anos depois é que bons filtros UVA se tornaram disponíveis. Os primeiros filtros UVA longos eram derivados de dibenzoilmetano (avobenzona). Em 1992 os cientistas começaram a colocar uma classificação com estrelas para indicar uma proteção contra raios UVA.


O surgimento dos testes de eficácia contra UVA


Mas foi somente em 2006 que a Comissão Européia publicou a primeira recomendação para que os protetores adotassem os testes de PPD ou UVA in vitro, além do comprimento de crítico acima de 370 nm.


É aqui que minha história começa


Na verdade, desenvolvi meu primeiro protetor solar em 2004 e desde então faço parte das mudanças que aconteceram desde então. As novas RDCs da ANVISA e 2012 foram um marco na história da proteção aqui no Brasil, onde o termo “bloqueador solar” foi proibido e os testes de UVA começaram a ser obrigatórios. Depois tivemos a polêmica da obrigatoriedade do doseamento de filtros.

Mas de forma geral vejo nosso mercado brasileiro oferecendo excelentes protetores e cada vez mais as empresas buscando a segurança do consumidor e a busca por formulações com sensorial mais agradável. Além, claro, da multifuncionalidade.


Espero que este texto ajude vocês, meus amigos leitores, a entenderem mais sobre o tema que eu tanto gosto, a proteção solar.


Abraços

Lucas Portilho


Ma Y, Yoo J. History of sunscreen: An updated view. J Cosmet Dermatol. 2021 Feb 14. doi: 10.1111/jocd.14004. Epub ahead of print. PMID: 33583116.





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