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Involucrina e Barreira Cutânea: uma proteína que merece mais atenção

há 7 minutos
5 min de leitura

Por Lucas Portilho, Farmacêutico, Mestre em Ciências Médicas e Formulador


Olá meus Amigos! Tudo em paz?


Hoje quero sugerir um artigo mais antigo, mas muito interessante para quem trabalha com desenvolvimento de produtos para barreira cutânea.

E já quero deixar claro: minha intenção ao sugerir esse trabalho é principalmente ajudar vocês a entenderem melhor a involucrina, uma proteína que aparece cada vez mais em estudos de diferenciação epidérmica e que muitas vezes é citada nos materiais técnicos de ativos cosméticos sem que a gente entenda exatamente o que ela representa.


Primeiro: o que é a involucrina?

A involucrina é uma proteína estrutural produzida pelos queratinócitos durante o processo de diferenciação epidérmica.

Ela começa a aparecer principalmente quando os queratinócitos deixam as camadas mais profundas da epiderme e avançam em direção às regiões superiores da camada espinhosa e camada granulosa.

Em outras palavras, o queratinócito nasce na camada basal, prolifera, começa a se diferenciar e, durante esse caminho, passa a produzir diferentes proteínas. Uma delas é justamente a involucrina.

Do ponto de vista molecular, a involucrina é uma proteína rica principalmente em resíduos de aminoácidos como glutamina e glutamato, apresentando regiões repetitivas em sua estrutura. Essas características são importantes porque permitem que ela participe de ligações cruzadas promovidas pelas transglutaminases.

O resultado é a formação progressiva do chamado envelope cornificado, uma estrutura proteica extremamente resistente que vai substituir funcionalmente a membrana plasmática do queratinócito durante sua transformação em corneócito.

Então, quando falamos em involucrina, estamos falando de algo muito mais interessante do que simplesmente um “marcador de barreira”.

Ela faz parte da própria construção física do corneócito.

Lucas Portilho ensina Cosmetologia clínica
Estude com Especialistas em Pele

E onde entram os lipídios?

Esse é um dos pontos mais interessantes do artigo.

Os autores explicam que o envelope cornificado começa a ser formado pela ligação de proteínas como involucrina e envoplaquina na superfície interna da membrana celular. Posteriormente outras proteínas, incluindo loricrina, passam a fazer parte dessa estrutura.

Mas existe ainda outro detalhe importante.

Os ceramidas podem ser ligados covalentemente às proteínas do envelope cornificado, principalmente à involucrina. Esses ceramidas ligados à estrutura proteica funcionam como uma espécie de base para a organização posterior dos demais lipídios do estrato córneo.

Ou seja:

proteína + lipídio trabalham juntos na formação da barreira.

Não faz muito sentido pensar em barreira cutânea apenas como reposição de ceramidas, colesterol e ácidos graxos. A diferenciação adequada dos queratinócitos e a produção correta das proteínas estruturais também são fundamentais.


O que acontece quando essa diferenciação está alterada?

O trabalho avalia principalmente dermatite atópica e mostra algo bastante interessante.

Na pele saudável, a expressão da involucrina ocorre predominantemente nas regiões superiores da camada espinhosa e na camada granulosa.

Na dermatite atópica, os pesquisadores encontraram uma expressão prematura da involucrina, começando já na região intermediária da camada espinhosa.

Ao mesmo tempo, apesar de a área de expressão estar aumentada, a intensidade de expressão da involucrina estava reduzida.

Isso mostra que simplesmente detectar involucrina não significa necessariamente que a diferenciação epidérmica esteja funcionando corretamente.

A distribuição e a quantidade da proteína também importam.

Os autores sugerem ainda que a redução da involucrina poderia estar relacionada à menor quantidade de ω-hidroxiceramidas ligados ao envelope cornificado, contribuindo para a alteração da barreira observada na dermatite atópica.


Involucrina, loricrina e filagrina não fazem exatamente a mesma coisa

Outro ponto interessante do trabalho é observar essas proteínas em conjunto.

Na dermatite atópica, os pesquisadores encontraram:

  • redução de filagrina;

  • alteração da expressão de involucrina;

  • aumento e distribuição anormal de loricrina;

  • alterações de queratinas relacionadas à proliferação e diferenciação epidérmica.

Isso reforça um conceito importante para nós formuladores:

barreira cutânea não depende de uma única proteína.

É resultado de diferenciação celular, proteínas estruturais, organização lipídica, ceramidas, colesterol, ácidos graxos e vários processos enzimáticos acontecendo de maneira coordenada.


E quais ativos podemos usar pensando em involucrina?

Para nós formuladores, essa discussão fica ainda mais interessante quando começamos a relacionar a fisiologia com os ativos que já temos disponíveis.

Um exemplo muito interessante é o PeptAIde® 4.0, da BASF. É um hidrolisado de proteína do arroz enriquecido com peptídeos específicos identificados com auxílio de inteligência artificial. Nos modelos utilizados pela BASF, o TNF-α reduziu proteínas relacionadas à diferenciação epidérmica, e o PeptAIde ajudou a recuperar a síntese de involucrina e filagrina. Ou seja, aqui temos um exemplo bastante direto de ativo cosmético relacionado à modulação da involucrina.

Outro ativo que podemos colocar nessa discussão é a niacinamida. Além de todas as aplicações que já conhecemos, existem dados mostrando aumento da síntese de involucrina e filagrina, além do estímulo à produção de ceramidas, ácidos graxos e colesterol. Isso ajuda a entender por que a niacinamida também é tão interessante para formulações voltadas à barreira cutânea.

Temos ainda ativos mais novos ligados à comunicação celular, como o Lactosome 55. Nesse caso, eu faria uma distinção importante: ele pode ser associado ao contexto de diferenciação epidérmica e fortalecimento da barreira, com atuação sobre proteínas estruturais importantes.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Exo Skin, da Glia, especialmente quando avaliamos sua proposta dentro da comunicação celular e da modulação de processos ligados à diferenciação dos queratinócitos e à função de barreira.

Também existem peptídeos capazes de atuar sobre diferentes proteínas da diferenciação epidérmica, incluindo filagrina, involucrina e loricrina. Isso mostra como a diferenciação dos queratinócitos está se tornando um alvo cada vez mais interessante no desenvolvimento de novos ingredientes cosméticos.

E aqui vale lembrar um ponto importante: modular involucrina não significa simplesmente aumentar involucrina o máximo possível.

A expressão dessa proteína depende da fase de diferenciação do queratinócito e de sua localização dentro da epiderme. Por isso, o mais interessante é analisar a involucrina dentro de um conjunto maior de marcadores de barreira.

Ativo

Relação com a barreira

PeptAIde® 4.0

Involucrina + filagrina

Niacinamida

Involucrina + filagrina + lipídios de barreira

Lactosome 55

Diferenciação epidérmica e proteínas de barreira

Exo Skin – Glia

Comunicação celular e suporte à diferenciação epidérmica

Peptídeos sinalizadores

Podem modular involucrina, filagrina e loricrina

Retinoides

Modulam diferenciação epidérmica e expressão de involucrina

Tatiele Katzer ensina Tricologia
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Por que estou trazendo esse artigo?

Porque hoje vemos muitos ativos cosméticos apresentando aumento de involucrina como um dos resultados experimentais.

Quando olhamos apenas o gráfico comercial, pode parecer simplesmente mais um marcador.

Mas depois de entender a fisiologia fica muito mais fácil interpretar esse dado.

Um ativo capaz de favorecer a expressão adequada de involucrina pode estar atuando sobre diferenciação dos queratinócitos e formação do envelope cornificado, processos diretamente relacionados à qualidade da barreira epidérmica.

Claro que aumentar involucrina isoladamente não prova que um produto restaurou completamente a barreira cutânea.

Mas passa a ser um marcador biologicamente muito mais interessante quando analisado junto com filagrina, loricrina, ceramidas, hidratação e perda transepidérmica de água.

E essa é justamente a razão pela qual quis trazer este artigo para vocês.

Antes de escolhermos um ativo porque o material técnico diz que ele “aumenta involucrina”, precisamos primeiro entender o que é a involucrina e por que ela está ali.

Para quem formula produtos para pele sensível, ressecada, envelhecida ou com comprometimento de barreira, é um conceito que vale a pena conhecer.

Espero que tenha ajudado a compreenderem mais as proteínas da pele!

abraços!

Lucas Portilho


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