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Microbioma da pele: o que todo Especialista em Pele deve saber

Olá meus amigos! Espero que estejam todos bem!


Acabei de ler uma revisão publicada agora em 2026 na FEBS Letters que traz uma discussão muito interessante: qual é a participação do microbioma no envelhecimento da pele? Para nós que trabalhamos com desenvolvimento de produtos dermatológicos e cosméticos um artigo bem interessante.


Pele envelhecida também apresenta um microbioma diferente

A pele jovem apresenta características que ajudam a sustentar determinados microrganismos: maior produção de sebo, boa hidratação, barreira íntegra, pH adequado e composição lipídica equilibrada. Com o envelhecimento, esse ambiente muda. Existe redução da produção sebácea, alteração dos lipídios, piora da função barreira, remodelamento da matriz extracelular e alterações imunológicas. E o microbioma acompanha essas mudanças.

Um exemplo da revisão é a redução de Cutibacterium, especialmente em comparação com peles mais jovens. Também aparecem mudanças em Corynebacterium, Staphylococcus e aumento de outros grupos. Curiosamente, a diversidade pode até aumentar com a idade, mas a rede de interação entre os microrganismos se torna menos conectada e aparentemente mais frágil. Isso é importante. Mais diversidade não significa necessariamente um microbioma melhor. Precisamos olhar para função, metabolismo e interação entre os microrganismos.


Cutibacterium acnes: nem sempre é o vilão

Esse é um ponto que eu gosto bastante. Quando falamos em C. acnes, automaticamente pensamos em acne e logo queremos eliminar essa bactéria. Algumas cepas de C. acnes produzem uma enzima antioxidante chamada RoxP, capaz de ajudar na proteção contra o estresse oxidativo. E sabemos que o estresse oxidativo participa praticamente de todos os grandes mecanismos relacionados ao envelhecimento cutâneo: dano ao DNA, disfunção mitocondrial, senescência, inflamação e alterações da matriz extracelular.

Em pele envelhecida e em algumas alterações associadas ao dano actínico, observa-se redução de determinadas populações de C. acnes. Então novamente: modular microbioma é diferente de simplesmente eliminar bactérias. Essa frase deveria estar na bancada de quem desenvolve cosméticos.


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O microbioma pode conversar diretamente com a barreira cutânea

Outro mecanismo muito interessante envolve o AhR, receptor de hidrocarbonetos arila. Microrganismos da pele conseguem metabolizar o triptofano e produzir indóis que ativam o AhR nos queratinócitos. E o AhR está relacionado com diferenciação epidérmica, expressão de proteínas de barreira e aumento da resistência do estrato córneo. Ou seja, existe uma sequência bastante interessante: microbioma → metabólitos → AhR → queratinócitos → barreira cutânea.

O artigo também cita o exemplo do Staphylococcus epidermidis, que pode produzir butirato. Esse metabólito consegue inibir a HDAC3 e reduzir a expressão de IL-33, mostrando que metabólitos bacterianos podem interferir inclusive em mecanismos epigenéticos e inflamatórios da pele. Esse conceito muda bastante nossa visão de formulação. Talvez não seja necessário colocar um microrganismo vivo dentro do cosmético. Podemos fornecer substratos para determinadas populações, utilizar lisados bacterianos, fermentados, metabólitos ou criar condições ambientais que favoreçam um ecossistema mais interessante.


Microbioma, senescência e inflammaging

Aqui o artigo fica ainda mais interessante. Células senescentes acumulam-se na pele durante o envelhecimento e passam a liberar várias moléculas inflamatórias, compondo o chamado SASP — senescence-associated secretory phenotype. Esse conjunto de citocinas, quimiocinas, lipídios, proteases e fatores de crescimento contribui para o inflammaging, aquela inflamação crônica e de baixa intensidade associada ao envelhecimento.

Mas existe aparentemente uma via de mão dupla. Um trabalho discutido na revisão mostrou que Moraxella osloensis, encontrada em maior quantidade em peles envelhecidas, foi capaz de induzir características de senescência em queratinócitos e fibroblastos e alterar genes relacionados ao metabolismo do colágeno e à matriz extracelular. Outro estudo mostrou que porfirinas produzidas pelo metabolismo bacteriano também podem induzir senescência em fibroblastos e queratinócitos.

Portanto, começam a aparecer evidências de um possível ciclo: envelhecimento altera o ambiente cutâneo → o microbioma se modifica → os metabólitos microbianos se modificam → esses metabólitos podem novamente interferir no envelhecimento da pele. Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes dessa revisão.

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E o que podemos fazer com os ativos cosméticos?

Alguns ativos que eu tenho usado em minhas formulações são'

Aeonome™

Um exemplo que gosto bastante para fazer essa correlação é o Æonome™, da LipoTrue. É um fermentado bacteriano, INCI Bacillus Ferment, desenvolvido dentro do conceito chamado pela empresa de agebiotic. A proposta é interessante porque não é simplesmente adicionar antioxidantes à fórmula. O ativo busca modular a atividade da microbiota comensal para aumentar a produção de metabólitos antioxidantes, entre eles o ácido cumárico. O fornecedor também apresenta dados de melhora de diversidade microbiana, hidratação, rugosidade e rugas. Percebam a ligação com o artigo: se o estresse oxidativo aparece como um dos mecanismos centrais conectando microbioma e envelhecimento, estimular uma comunidade microbiana capaz de gerar metabólitos antioxidantes passa a ser uma abordagem extremamente interessante. Não estamos tratando somente o queratinócito. Estamos tentando modular o metabolismo do ecossistema que vive sobre ele.


Bioecolia®

Outro ativo clássico é o Bioecolia®, da Solabia. Trata-se de um $\alpha$-glucan oligosaccharide*, portanto um prebiótico. A lógica é fornecer um substrato que seja utilizado preferencialmente por determinados microrganismos comensais, favorecendo o equilíbrio da microbiota em relação a microrganismos potencialmente indesejáveis. Existem estudos mostrando, por exemplo, estímulo ao crescimento de S. epidermidis, e a literatura recente continua classificando o Bioecolia como uma estratégia cosmética de suporte seletivo aos microrganismos comensais. É uma abordagem diferente do Æonome: no Bioecolia, pensamos principalmente em fornecer alimento seletivo; no Æonome, a proposta vai além e tenta explorar os metabólitos produzidos pela própria comunidade microbiana.

Pós-bióticos, lisados e fermentados

Outro grupo que merece atenção são os pós-bióticos. São componentes ou metabólitos derivados de microrganismos que podem exercer efeitos biológicos mesmo sem a utilização do microrganismo vivo. Já existem trabalhos mostrando fermentados e lisados relacionados com melhora de barreira, hidratação e marcadores inflamatórios. Uma revisão recente cita, por exemplo, creme contendo lisado de Streptococcus thermophilus associado à melhora dos lipídios do estrato córneo e redução da perda de água, além de fermentado de Epidermidibacterium keratini associado à melhora de hidratação, elasticidade e densidade dérmica. Outro estudo avaliou lisado de Lactobacillus paragasseri HN910 e encontrou aumento de marcadores de barreira e defesa antioxidante, juntamente com redução de citocinas relacionadas ao SASP, como IL-1, IL-6, IL-8 e TNF-$\alpha$. Olhem novamente a conexão com envelhecimento: estamos falando ao mesmo tempo de barreira, microbioma, inflamação, estresse oxidativo e senescência.


Outros ativos interessantes para formulação


Além do Bioecolia e Æonome, temos várias matérias-primas que seguem essa linha de raciocínio:

  • Ecoskin®: associa glucooligossacarídeos, fruto de yacon rico em fruto-oligossacarídeos e componentes derivados de Lactobacillus.

  • Relipidium®: trabalha principalmente a recuperação do ecossistema e dos lipídios da barreira.

  • Phytofirm® Biotic: utiliza extrato de soja fermentado por Lactobacillus plantarum.

  • Lactobiotyl®: baseado em fermentado de Lactobacillus e entra na categoria de pós-bióticos.

Essas tecnologias representam abordagens diferentes para um mesmo objetivo geral: não esterilizar a pele, mas melhorar o ambiente biológico no qual pele e microbiota convivem.


E os ativos tradicionais?

Aqui existe outro detalhe que considero importante. Uma formulação para microbioma não precisa obrigatoriamente ter escrito “microbiome” no folder do ativo. Se sabemos que o envelhecimento reduz sebo, altera lipídios, aumenta o pH e prejudica a barreira, ativos capazes de recuperar essas condições também podem, indiretamente, favorecer um ambiente microbiológico mais adequado.

Por isso eu pensaria também em associações com:

  • Niacinamida: auxiliando diferenciação epidérmica e síntese de lipídios;

  • Ceramidas, colesterol e ácidos graxos: recuperando a matriz lipídica;

  • PCA, glicerina e ácido hialurônico: melhorando a hidratação;

  • Antioxidantes: reduzindo o estresse oxidativo do microambiente;

  • Ativos calmantes e anti-inflamatórios: capazes de reduzir aquela inflamação persistente relacionada ao inflammaging.

Ou seja: tratar microbioma não significa necessariamente formular apenas com prebióticos. Precisamos tratar o ecossistema cutâneo.


O futuro provavelmente será metabolômico

Essa foi, para mim, a mensagem mais interessante do artigo. Durante muito tempo nossa pergunta foi: “Qual bactéria existe nessa pele?”. Depois passamos a perguntar: “Qual é a proporção entre essas bactérias?”. Agora talvez a pergunta mais importante seja: “O que essas bactérias estão produzindo?”.

Ácidos graxos de cadeia curta, indóis, porfirinas, enzimas antioxidantes e inúmeras outras moléculas podem interferir diretamente na barreira, inflamação, estresse oxidativo, pigmentação e senescência. A própria revisão conclui que compreender o metabolismo microbiano será essencial para o desenvolvimento de intervenções mais precisas contra o envelhecimento cutâneo.

Portanto, acredito que teremos cada vez menos interesse em simplesmente “aumentar diversidade” e muito mais interesse em modular cepas, funções e metabólitos específicos. Para quem formula, isso significa uma nova forma de pensar o anti-aging. Retinol, vitamina C, peptídeos, antioxidantes e estimuladores de matriz continuam extremamente importantes. Mas agora existe mais um personagem nessa história: os trilhões de microrganismos e metabólitos que participam diariamente da fisiologia da nossa pele. E talvez o cosmético anti-aging do futuro não trate apenas a célula humana. Talvez ele tenha que tratar também o ecossistema que conversa com ela.


Vale a pena ler o artigo que está liberado na íntegra!

Abraços

Lucas Portilho


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